quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

A mochila

Raimundo gostava de usar as mãos. Exceto para escrever e fazer contas. Por isso, saiu da escola assim que terminou o primeiro grau (atual ensino fundamental). Ele está sempre por aí, serrando, martelando, pintando, mexendo na massa e levando um choque ou outro quando se mete a eletricista.
Outro dia, ele teve que resolver uns assuntos no banco, mas não tinha onde deixar suas ferramentas. Então, foi com a mochila nas costas, certo de que iria sair de lá rápido.
Que engano! A agência onde foi estava lotada (era dia dez). Caixa eletrônico não era com ele. Nem computador tinha! Resignou-se e foi em direção à porta giratória. Chegando lá, travou. Raimundo olhou para os lados, para dentro, sem saber o que estava acontecendo. E com a mochila nas costas.
O segurança veio falar com ele.
- O senhor tem alguma coisa de metal aí? – Raimundo negou com a cabeça. – Vá pra trás da faixa amarela e tente de novo.
Clanc! – travou de novo. O guarda perguntou, e ele negou, dessa vez em voz alta.
- Não, não tenho nada de metal! – já ficando nervoso.
Enquanto isso, uma senhora com uma bolsa tirou o celular e as chaves, colocou-as numa caixa ao lado da porta giratória e passou. A bolsa dela era enorme, e ela passou...
- Senhor (ele não tinha mais que uns vinte anos, e apesar da irritação, gostou de ser tratado assim), por que não tira as coisas da mochila e põe na caixa ao lado, como aquela moça?
- Mas eu não tenho nada de metal! – gritou.
Enquanto isso, outras pessoas entravam e saíam sem problemas. Algumas travavam, mas colocavam coisas na caixa e depois conseguiam passar sem problemas.
Então, ele resolveu tentar passar com tudo, com a mochila nas costas. Bateu a cara no vidro da porta. Começou a gritar que não ia sair dali até liberarem a porta, que não tinha nada de metal, que os seguranças estavam travando a porta pra tirar uma com a cara dele.
As pessoas que chegaram depois viram o escândalo resolveram procurar outro banco. Quem estava dentro foi reclamar com os gerentes por que não liberavam o coitado pra ele poder entrar, que deviam tirar aquele sujeito, que não estava deixando eles saírem.
Um gerente foi até a porta conversar com Raimundo. Falou que a porta giratória trava quando a pessoa tem coisas de metal, que é uma medida de segurança para proteger os clientes e funcionários, blá, blá, blá.
Alterado, Raimundo disse pela décima vez que não tinha nada de metal, que não ia abrir a mochila, que isso era uma violação dos seus direitos, que ia procurar a polícia. O gerente o deixou falando sozinho.
O faz-tudo deu um murro na porta. O bancário virou-se e disse ao segurança que se ele quebrasse o vidro, o prendesse, que o banco ia processá-lo por vandalismo. E voltou para sua mesa.
Raimundo, que não era homem de chorar, teve uma crise nervosa e começou a chorar. Abriu a mochila e derrubou no chão todas as suas ferramentas, gritando:

- Onde vocês estão vendo alguma coisa de metal aqui? Hein?

domingo, 5 de novembro de 2017

Seguro morreu de velho

Uma vez tirei férias e fui pra Recife. Eu estava com um grupo fazendo excursão pela cidade e estava sentindo um incômodo. Nada escatológico. Eu olhava pro guia, que tinha mais ou menos a minha idade, e sentia vontade de dar um murro nele. E assim levei o passeio.
Na hora do almoço, fomos a um restaurante de pratos típicos da região. Edmilson, o guia, se sentou comigo e mais dois turistas. Enquanto esperávamos os pedidos, começamos a conversar.
“Seu Norberto, percebi que o senhor não parecia bem durante o passeio da manhã. Talvez seja melhor trocar o prato. Esse que o senhor pediu é meio pesado. “
“Não é nada no estômago “, respondi.  “É uma sensação. Por acaso já nos conhecemos? “
“Eu já morei em São Paulo. Tinha uma fábrica lá, junto com meu irmão. O senhor não se lembra de mim? “
Olhei pra ele, tentando puxar pela memória. Fiz que não.
“Faz uns quinze anos. A minha firma tinha uma conta no banco (...) lá do Jardim (...).
Tomei um choque. Eu trabalhei naquela agência na mesma época. E lembrei.
Eu era verde de banco, estava aprendendo o serviço. Já conhecia o Edmilson de vista, cumprimentava-o quando ia lá, mas não tinha muito contato. Certo dia, a gerente o levou à minha mesa e disse que ele ia fazer um seguro. Ele não me encarava nos olhos, mas de qualquer maneira, seguro de vida era uma das metas do mês.
Fiz a apresentação dos tipos existentes e valores de prêmio (mensalidade) e o valor correspondente a ser recebido pela família caso ele morresse.
Na época, apesar de já existir o Código de Defesa do Consumidor, era comum a prática da venda casada. Ele não prestou muita atenção nos meus argumentos de venda e escolheu o valor mais baixo. Assinou o contrato do seguro de vida e voltou pra mesa da gerente pra fazer o negócio que lhe interessava.
Na hora que vi sua linguagem corporal, pensei: vai dar merda.
Dito e feito! Seis meses depois, ouvi de passagem que a conta jurídica do cara estava com operações em atraso. O seguro acabou cancelado e não pensei no sujeito durante três anos.
Por algum motivo, consultei o cadastro dele, vi que tinha aberto uma conta física e estava morando em outro Estado. Xinguei de safado e deixei pra lá. Nunca mais pensei nele... até aquele dia.
“Como você virou guia turístico”, perguntei eu.
“Foi graças ao FIES. Depois que a dívida caducou e o meu nome ficou limpo, eu fiz cursinho e passei na faculdade de Turismo. Eu fiz das tripas coração para manter as contas em dia. Além da faculdade, eu tinha uma família para sustentar. “
“E como foi isso? “
“Fiz cursos sobre como organizar o orçamento doméstico. Além disso, descobri um grupo chamado Devedores Anônimos. “
Fiquei curioso. Já tinha ouvido falar dos Alcóolicos Anônimos, do Al-Anon, mas nunca me ocorreu que comprar (e, consequentemente, se endividar) poderia ser uma compulsão. Infelizmente ele não teve como quitar ou sequer negociar as dívidas da fábrica. Isso impactou muito no resultado da agência no ano em que elas foram lançadas em prejuízo.
Ouvi sobre as características da reunião, as metas sugeridas (parece que em tudo que fazemos temos que traçar metas) e em como isso melhorou sua qualidade de vida.
O ex-cliente da minha antiga agência não levou um soco e foi nosso guia durante o resto da minha estadia em Recife. Tivemos outras conversas muito interessantes sobre o mercado financeiro, o consumismo, a situação política do Brasil, nossas famílias.

Cheguei à conclusão de que a falência da fábrica foi seu fundo do poço e dali em diante, sua jornada foi apenas para cima.

sábado, 21 de outubro de 2017

Meu amigo Cleyton

Tem gente que não sabe lidar com dinheiro.
Vejam só meu amigo Cleyton. Ele abriu sua primeira conta quanto tinha dezesseis anos, ao arrumar o primeiro emprego. Como era menor, não podia ter cheque especial nem cartão de crédito. Mesmo assim, gastava o que podia e não podia.
O pessoal falava para guardar um pouco, ajudar nas despesas de casa. Ele até ajudava, mas dizia que ganhava menos.
O dia que a mãe dele, a Dona Rita, descobriu um holerite com o valor real, ela ficou uma fera. A coroa já andava desconfiada que ele escondia o ouro, com todas as coisas novas que o filho andava comprando.
Ela exigiu que o Cleyton deixasse o cartão com ela. Aí ele começou a argumentar.
“Mas e na hora do almoço, mãe? Eu vou passar fome?” Ela disse que não, que levasse marmita. “E quando eu quiser sair com meus amigos?”  Que levasse o dinheiro contado para condução, ingresso e lanche. E assim foi a ladainha, até que o meu amigo se resignou e entregou o cartão da conta.
“E nem pense em usar a internet para movimentar a conta!” Vociferou Dona Rita. “Quero ver o extrato no pagamento e no vale!” A mãe conhecia o filho que tinha.
Cleyton começou a pensar em se mudar, morar sozinho. Mas, como disse no início da história, ele ainda era de menor. Quem ia deixar ele assinar um contrato de aluguel? Mesmo assim, ele começou a pesquisar. Descobriu que o aluguel de um quarto na pensão levaria metade do salário dele. Um quarto de pensão! Não uma casa, nem uma kitinete, muito menos um apartamento.
Ele começou a reparar nas despesas de casa. Aluguel, luz, água, telefone, supermercado, IPTU (o menino achou um absurdo terem que pagar o imposto, sendo que o imóvel nem era deles). Na lista do mercado, viu o tipo de coisa que a mãe comprava. Verduras, legumes, pão, margarina, óleo, leite, café, produtos de limpeza, sabão em pó.
Eles viviam da pensão alimentícia que o pai depositava e dos trabalhos de faxineira da mãe. E agora do salário que ele ganhava. Começou a olhar com certa vergonha para os tênis de marca, o smartphone de última geração e as roupas vistosas que tinha comprado escondido dela.
Um final de semana, em vez de ir pra balada, resolveu conversar com a mãe. Disse que tinha observado com atenção as despesas que tinham em casa e queria conversar sobre isso com ela. Foram horas analisando cadernos onde Dona Rita anotava despesas e receitas. Cleyton viu o dinheiro que repassava nos primeiros meses após arrumar o emprego. Ficou acabrunhado, mas seguiu em frente.
Ela anotava tudo no mês, fazia as contas e no final apresentava o saldo. Sempre sobrava um pouquinho. E esse valor aparecia com uma anotação: depositado na poupança. Havia meses em que ele tinha que pedir emprestado aos colegas, já que não podia fazer isso no banco ainda.
Aí ele percebeu que, com o comportamento que tinha, se tivesse feito empréstimo no banco, estaria com o nome sujo. Mas ele refletiu: mas ele já não estava, entre os conhecidos? Não estava na lista do SPC, mas tinha um monte de gente que já olhava torto pra ele por causa das dívidas.
Confessou isso à mãe. Ela não pareceu surpresa.

“Meu filho, quanto você deve pros seus amigos?” Cleyton não soube dizer. Não sabia os valores, mas sabia para quem. “Então você vai perguntar pra cada um dos amigos pra quem você deve o valor exato. E diga que vai conversar na semana que vem sobre a forma de pagamento. E não esqueça de anotar nome e valor”.
Ela pegou uma caderneta em branco e deu ao rapaz. “Coloque o nome da pessoa na primeira linha e quando conversar com ela, o valor. Depois, vamos fazer as contas e bolar um jeito de pagar esse pessoal”.
Durante a semana, Cleyton procurou todo mundo. Alguns se espantaram. Outros tinham até esquecido da dívida. Ele percebeu o quanto a pecha de caloteiro estava impregnada nele. Se sentiu mal por isso, principalmente porque algumas dessas pessoas tinham deixado de falar com ele depois de lhe emprestarem dinheiro – e ele não ter devolvido.
Munido das informações, no final de semana seguinte o meu amigo planejou o pagamento das dívidas. Demorou um ano, mas no final ele conseguiu saldar todas.
Mês passado, Cleyton fez dezoito anos. Foi ao banco atualizar o cadastro e passou a ser o único responsável pela movimentação da conta. Ofereceram a ele cheque especial e cartão de crédito. Ele recusou, mas perguntou sobre investimentos. Acabou fazendo um plano de previdência e uma poupança.
A única dívida pela qual ele se interessou foi o financiamento imobiliário. Mas deixou pra outra ocasião, pois achou os juros muito altos.

domingo, 15 de outubro de 2017

Dona Maria

Dona Maria era uma senhora que aparentava ter uns sessenta anos. Ela andava atarantada com seu empréstimo em atraso. Já tinha recebido ligações de dezenas de cobradores, que pareciam usar um tom ameaçador. Ela morava sozinha e não tinha quem lhe desse orientação sobre como proceder.
Ela caiu na lábia de uma gerente e depois de alguns meses, não conseguiu arcar com as prestações do empréstimo, que eram muito altas pra condição dela. Estava pagando as parcelas com dois meses de atraso.
Quando ia ao banco para tentar renegociar, a tal gerente, que era toda sorrisos quando fez ela assinar o contrato, parecia não notar a sua presença.
Até que um dia foi atendida por Edmundo. Ele chamou sua senha e ouviu sua história. Verificou o cadastro de Dona Maria, a situação do empréstimo, o que ela recebia pelo banco. E traçou uma estratégia para colocar a conta dela em dia.
Edmundo verificou as regras do banco para situações como a dela. Explicou o que teria que ser feito, o melhor dia para renegociar, de acordo com os vencimentos da senhora. Explicou que se pedisse desconto, poderia ficar com a conta, mas não teria crédito.
A gerente, vendo que o escriturário se demorava com Dona Maria, após ela ir embora, foi até a mesa dele.
- Não gaste saliva com aquela mulher. Ela é uma safada.
Chocado, Edmundo refletiu sobre o acontecido e sobre qual era seu papel na instituição. Seria a busca do lucro a qualquer custo, ou ele poderia fazer algo por aquela pessoa que tinha idade para ser sua mãe?
Dona Maria gostou tanto do atendimento de Edmundo que só procurava a ele.
Um dia, finalmente conseguiram fazer a renegociação numa data de vencimento compatível com a data de pagamento da sua aposentadoria.

Edmundo saiu da mesa e foi ajudar as pessoas nos caixas eletrônicos, e Dona Maria estava lá todo mês com o boleto de seu empréstimo renegociado, pedindo-lhe ajuda para fazer o pagamento.

domingo, 8 de outubro de 2017

O dorminhoco

Felisberto se espreguiçou e esfregou os olhos antes de abri-los. O ambiente estava escuro e vazio. Bem, não exatamente vazio. Apenas não havia pessoas lá. Ele não reconheceu o lugar a princípio. Olhou para os lados e viu a pasta de serviço.
Viu algumas mesas com computadores e um tablado alto com um tipo de balcão de atendimento. Tinha uma tevê pendurada no teto... não, apoiada num pedestal. Aí viu o totem com o logo do banco que ele tinha ido hoje à tarde. Procurou uma janela. Já era noite.
Onde ele tinha cochilado (ou hibernado?) fica próximo de uma coluna. Ficou meio escondido. Noite passada, ele tinha varado a madrugada estudando pra prova de... quando mesmo? Olhou no calendário do celular e o horário. Puta merda! Tinha perdido a prova!
Quando Felisberto chegou ao banco, a fila pro caixa tava enorme. Pegou sua senha de atendimento, e quando uma pessoa se levantou, ele se sentou e apagou.
Aí o boy se lembrou que as contas que ele veio pagar tinham vencido ontem. O patrão vai ficar uma fera quando souber da mancada.
“Quem estiver aí apareça!” gritou uma voz autoritária. Caramba, pensou o dorminhoco, devo ter acionado o alarme.
“Tudo bem, não atire. Estou desarmado.”
Dois pms, acompanhados de um homem de terno, apareceram no saguão. Um dos milicos mandou levantar as mãos. Ele obedeceu, é claro. Vieram e começaram a revistá-lo e fazer perguntas.
O homem de terno, meio sonolento, passou do espanto à gargalhada ao ouvir a história de Felisberto.
“Eu vou dar uma olhada nas gravações. Se bater com a sua história, pode ir pra casa.” Disse o gerente. “Você não chegou a pagar as contas, não é?” Ele fez que não com a cabeça. “Vou ver o que posso fazer. Venha durante o horário de atendimento.”

O gerente ainda pediu aos policiais que o levassem para onde o dorminhoco quisesse. Já estava amanhecendo. Felisberto foi tomar o café da manhã na padaria perto do seu trabalho e ligou pra mãe, avisando que estava bem. E ele teria que conversar com o professor sobre a sub.

sábado, 30 de setembro de 2017

O banco, cenário de ficção científica

Para Sheila. Que você tenha muito sucesso no departamento de TI.

Hoje em dia no setor bancário temos a tal da biometria pra acessar ou liberar transações no caixa eletrônico. Basicamente, a gente mete o dedo no sensor, e ele vincula nossa impressão digital à conta. Eu acho o máximo, porque posso sair sem o cartão e sacar ou tirar o extrato digitando os dados da conta e metendo o dedo, sem me preocupar em fraudes e troca de cartões.
Isso tá meio que na moda. A Justiça Eleitoral está fazendo o cadastramento biométrico dos eleitores. Até na academia o pessoal mete o dedo pra girar a catraca. Comigo não deu muito certo porque eu desconfio que o modelo de sensor não é lá essas coisas. Ou cadastraram minhas digitais errado. Porque, na boa, tem gente que passa sem problema. Porque comigo não?
No banco é tranquilo, mas eu vi gente se embananar ao colocar o dedo pra leitura da digital. Principalmente idosos. Tem uns que torcem a mão de um jeito que lembra aquele filme de terror, O Exorcista. Parece que está girando a cabeça (ou, no caso, a mão) 180 graus. Minha mãe foi uma Linda Blair do setor bancário. A agência resolveu desabilitar o cadastramento da digital dela antes que ela começasse a andar pelo teto.
Outro dia eu assisti uma reportagem sobre um lugar, acho que um hospital, em que os funcionários batiam o ponto com a digital e acharam um meio de burlar o sistema. Dizem que as impressões digitais são únicas. Cada um tem as suas, e ninguém tem uma igual. Então, como eles fizeram?
Usaram moldes de látex e os cúmplices usaram esses moldes como luvas. Aí eu lembrei de dois filmes que mencionavam esse tipo de identificação no enredo. E sobre como fraudar o sistema.
Um é O sexto dia, com Arnold Schwarzenegger. E se você ainda não assistiu o filme, já vou avisando: tem spoiler. O Arnold que acorda no táxi é o clone. O outro é Minority Report, com o Tom Cruise. Ele faz um transplante de olho (de olho!) e quando vai ao shopping, o programa de identificação lhe dá as boas vindas como “Sr. Nakamura”.
Outra parte do nosso corpo que seria única e, portanto, à prova de cópia seria uma parte do olho, a íris. Eu pensei, quando vi a cena do táxi: pô, que legal se a tecnologia avançar a ponto da gente não precisar de cartão, cheque ou dinheiro pra pagar as contas. Só olhando o sensor, e pronto.
Mas aí o herói do filme é um clone. Com o mesmo padrão, as mesmas digitais (dizem que até o formato da orelha é único). Com ele e o original andando por aí ao mesmo tempo, levaria metade do tempo pra gastar o dinheiro!
Deixemos de lado a clonagem, mesmo com a Dolly. O que impediria os bandidos de espalhar sensores que vão cobrar por compras e serviços que não pedimos? Imagine um comerciante mal intencionado que põe um desses na vitrine, e só da gente olhar pra mercadoria, compramos ela. Daí, de duas uma: recebemos um monte de entregas em casa, e/ou quando a gente quiser comprar uma balinha, recebemos a mensagem de “saldo insuficiente”.
Daqui a pouco, as maquininhas de cartão vão ser trocadas por leitores de impressão digital. Mas aí vamos ter que tomar muito cuidado onde passamos o dedo, e lembrar de limpar o sensor depois de pagar a compra. Pelo menos a gente se livra do porre de ter que decorar senha. Só que se fraudarem a digital, não vamos ter como bloquear e trocar, não é mesmo?

E o que acontece se perdermos o dedo cuja digital está cadastrada? Ou, nesse delírio futurista, se eu precisar de um transplante de córnea, vou ter acesso às contas do doador? Sei lá! Antes do avião ser inventado, quem imaginou morrer num acidente aéreo? Júlio Verne, talvez?

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Viagem no tempo


Quando eu era garoto, comecei a fazer serviço de banco pros meus pais. Não era essa facilidade de hoje em dia, que podemos acessar o banco com um aplicativo de celular e fazer até depósitos em cheque tirando uma foto.
Pra ir até a agência também não era a moleza que é agora, com um banco aqui na esquina. Em relação à distância, por exemplo, eu tinha que pegar um ônibus na ida e outro pra voltar. E tinha que pagar as duas passagens, em dinheiro ou passe de papel. Nada dessas modernidades do bilhete único.
Na agência, também não tinha moleza. Tinha que preencher guia de depósito, para sacar tinha que ser com cheque. Mas aceitava todas as contas, exceto boleto vencido de outro banco.
A movimentação da conta tinha que ser com talão de cheques ou, no caso de poupança, a caderneta.
E por falar nela, só podia depositar naquele dia e os juros eram trimestrais. Se fosse aplicar em outro dia, era obrigado a abrir outra conta, uma pra cada dia do mês, exceto a partir do dia 29. Por causa de fevereiro, é claro. Tem uma história sobre um imperador romano ter roubado um dia do mês de fevereiro, mas isso é pra outro dia.
As filas eram imensas, mas tinha caixa de monte. E o pessoal passava o tempo conversando ou lendo. Não tinha Facebook nem WhatsApp, muito menos celular. Computador era coisa de seriado de ficção científica (assim eu imaginava na época). Em vez disso, tinha máquinas de escrever e registradoras que autenticavam os recibos.
“E música, as pessoas ouviam?”, perguntou a criança.
Pensei um pouco antes de responder. “Sim, os clientes começaram a ouvir música dentro do banco quando apareceu o walkman.”
“O que é um walkman?”
“É...” eu titubeei. “É o aparelho que a gente usava pra ouvir música fora de casa na época.”
“E usava esse tal walkman pra mais alguma coisa?”
“Bem, alguns modelos dava até pra gravar.”
“Só??”
“Quer que eu continue ou você quer mudar de assunto?”. Ele olhou pra mim, em dúvida. Depois fez um sinal pra continuar a história.
Caixa eletrônico? Nem sonhávamos com isso (os clientes, claro). E lotérica era só pra aquilo: fazer aquela fezinha na loteria federal ou na esportiva.
Não tinha porta giratória também, travando com qualquer vintém. Mas o risco de assaltos era mais alto, justamente por isso.
As filas eram por caixa, e o pessoal ficava mudando de fila quando percebia que uma andava mais rápido, igual ao que os motoristas fazem no trânsito. Até que um dia inventaram de fazer a fila única.
Só que era única mesmo. Ficava idoso, gente com criança, grávidas, na ordem de chegada. Acho que isso começou a mudar quando fizeram a lei do transporte gratuito pra idosos, depois os assentos preferenciais. Aí apareceu a fila preferencial.
Vieram então as portas giratórias e o pessoal dando piti porque a porta travava, e culpavam os seguranças de não irem com a cara do cliente e travar a porta.
Um dia, apareceu uma máquina num canto da agência e pediram pro meu pai criar uma senha. Eu nunca tinha ouvido aquela palavra, mas o gerente disse que, com os dados da conta e a senha, meus pais poderiam tirar um saldo ou extrato da conta sempre que quisessem. Bom, como eu ia ao banco todo dia, acabei decorando a tal da senha (e o número da agência e da conta) e tirava um extrato sempre que fazia um depósito.
Depois vieram com um retângulo com o nome do banco, agência, conta e o nome da pessoa. Na época, a gente nem sabia o que era cartão de crédito. E o caixa eletrônico.
No começo, ele fazia o mesmo que aquelas máquinas onde a gente tirava extratos – que basicamente era uma calculadora de mesa com bobina, só que em vez de cálculos dava a movimentação da conta ou o saldo.
Mas, voltando ao caixa eletrônico, ele fazia três coisas: extrato, saldo e sacar dinheiro. E tinha que usar o tal do cartão com a senha. E ela era só de números. Hoje tem tantas opções que a gente fica tonto só de olhar. Depois veio a internet e agora os aplicativos de celular.
“Puxa, pai, como você sabe tanto sobre banco?”
“Ora, filho! Eu trabalho em um. Só que as coisas mudaram muito desde a época em que eu era criança.”

“Puxa, como você é velho!” disse o garoto. “Isso aconteceu mesmo ou você inventou tudo isso?”

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Caixa – Vitrine e saco de pancada dos bancos


 
 

Essa é uma visão pessoal sobre o trabalho do caixa dentro do banco, e como ele influencia a visão do público sobre a instituição onde trabalha. Há muitos fatores a considerar, como a redução crescente (!) do número de bancários e como isso afeta o atendimento bancário.

Em primeiro lugar, é necessário considerar a discrepância entre as visões do que é um estabelecimento bancário para a empresa e para o público. Para a empresa, o objetivo é fazer negócios. E, ao contrário de outros estabelecimentos comerciais, a mercadoria do banco é o dinheiro. O meu, o seu, o nosso dinheiro. Onde, exatamente? Nas diversas aplicações, como poupança, CDB, fundos de investimento, previdência privada. Em produtos como seguros de diversos tipos, títulos de capitalização e consórcios pra todos os tipos e gostos. E o lucro está na diferença entre o que ganhamos nas aplicações e os juros dos empréstimos – os chamados cdcs, consignados, e os famigerados cheque especial e cartão de crédito, os produtos com a taxa de juros mais altas de qualquer banco – o que muda são os juros cobrados de banco para banco.

Para quem é de fora – tanto clientes como não clientes, o banco é visto pela grande maioria como um lugar onde, pra começar, se pagam as contas. E guardar dinheiro, quando sé é poupador, ou onde se tirar dinheiro, quando recebe o salário ou aposentadoria.

E é aí que entra o caixa.

Há regras que ele tem que seguir no atendimento ao público que nem sempre são entendidas pelos clientes – como a identificação da pessoa que quer sacar um valor. No dia a dia, se vê de tudo: gente sem documento, com xerox de documento, com documento vencido, com cartão que não é dele querendo tirar dinheiro da conta – às vezes por ignorância, outras de má-fé, com documentos falsos.

Muita gente reclama da demora do atendimento no caixa. E isso muitas vezes é responsabilidade de mal entendidos como o acima, além da maneira como as pessoas vêm ao guichê. Pessoas que não sabem a senha, não sabem o saldo, não sabem nem o número da conta atrasam o atendimento. E quando querem fazer uma transferência para uma conta de outro banco? Não trazem o CPF ou CNPJ. Aí o cliente fica com cara de anhéééé?!

As pessoas às vezes vêm despreparadas ou distraídas ao banco: trazem documentos vencidos de outros bancos, com o cartão de outro banco querendo sacar (só porque um certo banco tem BRA no nome, não significa que pode usar o cartão no Banco do BRAsil, por exemplo).

Algumas pessoas acham que o trabalho do caixa é contar dinheiro. Eu diria que TAMBÉM, mas não só isso. E há uma rotina que ele segue para organizar as cédulas para posterior recolhimento à tesouraria.  Seguir esse padrão ajuda na hora de contar o dinheiro, independente para que seja: saque, depósito, pagamento de conta ou recolhimento para a tesouraria. E ajuda na identificação de notas falsas também. Trazer o dinheiro bagunçado pode dobrar o tempo de atendimento de uma pessoa.

Você, leitor, pode pensar: e eu com isso? Você já reclamou porque um caixa estava demorando pra atender um cliente? Pois é...

Qual é esse padrão? Pra começar, notas de mesmo valor todas juntas, com a “cara” voltada para o mesmo lado. Não importa se as cédulas forem de tamanhos diferentes. E abertas. Quando levar o dinheiro, lembre do formato “carteira aberta” (nota esticada) e não “fechada” (dobrada).

O mesmo vale para as moedas. Tem gente que quebra o cofrinho e traz as moedas do jeito que estão. Se a quantidade de moedas é pequena, não tem problema. Mas e quando as pessoas trazem verdadeiros fardos? E tudo misturado? Além disso, as agências onde trabalhei não tinham contadoras de moedas. É tudo na mão. Antigamente, o Banco Central mandava lotes de moedas em pacotes com MIL moedas. E a gente tinha que separá-las em lotes de 100, para ficar administrável.

Veja só, leitor, quanta coisa retarda o atendimento do caixa.

Além disso, com a informatização dos bancos, muitas pessoas são empurradas para os caixas eletrônicos ou para a internet, tendo condições ou não. Sabemos que há uma grande parcela da população que é semianalfabeta ou até analfabeta e são obrigadas a usar as salas de auto atendimento. Muitas não conhecem nem os números impressos! E dá-lhe golpe em cima desse povo.

Além desse grupo vulnerável existe aquele dos que não estão acostumados ao uso do computador; esse instrumento não faz parte do dia a dia deles diretamente. E entre os que estão familiarizados, há uma grande parcela que desconfia das transações on line: não faz compras pela internet nem acessa sua conta pela web.

Nos dias de maior movimento, o maior apelo do pessoal da fila é: põe mais um caixa! Mas os bancos trabalham com uma lógica cruel: cortar custos para aumentar lucros. E o empregado, em vez de investimento, é visto como “custo” a ser cortado.

Além dos postos de trabalho que não são repostos a cada leva de aposentadorias, há uma grande rotatividade no setor bancário, em especial no privado. E quando falo de rotatividade falo de demissões.

Departamentos inteiros são extintos, mas as metas aumentam a cada dia e o pessoal que fica se sente sobrecarregado; no caixa não é diferente. Há tempo limite de espera, tempo de atendimento, e os caixas e respectivos gerentes são avaliados por esses fatores. Em São Paulo, chegou-se a aprovar uma lei que estabelecia como limite de atendimento em dias de pico (pagamento de salários, dia dez) o prazo de meia hora. Quem trabalha no caixa gostaria de fazer um atendimento rápido, mas a falta de pessoal, aliada aos problemas acima citados, dificulta...

Há trinta anos, antes do surgimento dos caixas eletrônicos, havia agências com quinze guichês.  Quando entrei no banco, a agência onde ia trabalhar tinha cinco; depois de uma reforma, ficou com três, sendo um, escondido, para processamento de malotes de empresas. Tem agências que trabalham com apenas UM caixa e o gerente, que nos dias de maior movimento tem que abrir o caixa também. Além de monitorar os caixas eletrônicos, abastecê-los, chamar a assistência técnica, etc., etc.

O surgimento dos correspondentes bancários piorou a situação para clientes e bancários; as contas de consumo deixaram de ser aceitas na maioria dos guichês, empurrando as pessoas para as lotéricas e outros correspondentes que surgiram depois. E hoje em dia só aceitam no débito automático ou no caixa eletrônico. (Aliás, você já se perguntou porque uma conta é aceita no meio eletrônico – caixa ou internet – e não no guichê, olho no olho?)

Outro ponto a ser considerado é a diferença de caixa. Mas isso fica pra outro texto.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Qual é o banco ideal para o banqueiro?

Neste momento em que a greve de 2013 dos bancários está no segundo dia, faço uma reflexão sobre qual é o banco ideal para cada um dos envolvidos. Mas por enquanto vou focar apenas nos banqueiros, para que você, leitor, reflita e tome sua decisão.
Vou apenas fazer algumas considerações. Os dados podem ser obtidos no site do Sindicato dos Bancários de São Paulo (www.spbancarios.com.br).
Então, qual é o banco ideal para o banqueiro? Vamos a uma lista. Se você acha que está incompleta, comente o artigo.

- Com o minimo de funcionários (se possível, nenhum, em um futuro próximo, recebendo o mínimo possivel para não configurar escravidão.
- Funcionários loucos para cumprir as metas e se superar, mesmo que a carteira de clientes esteja saturada.
- Funcionários que não sejam sócios do sindicato, hostilizem os sindicalistas, aceitem as condições de negociação por mais desfavoráveis que sejam e votem contra a greve.
- O máximo de clientes, de preferência sem restrição alguma
- Que os clientes usem somente os caixas eletrônicos e internet (de preferência internet)
- Que os clientes comprem todos os produtos que o banco oferecer: seguros, previdência,  consórcio,  investimentos, empréstimo,  capitalização, cartão de crédito,  cheque especial
- Clientes que paguem em dia os compromissos assumidos e não reclamem.
Clientes que só apareçam na agência para fazer as seguintes coisas: abrir conta, atualizar cadastro e realizar negócios

E você, cliente, bancário, vigilante, qual é o seu banco ideal? Comente o texto, dê sugestões.

terça-feira, 9 de abril de 2013

6 erros que um cliente bancário comete

Muitas pessoas não sabem como movimentar uma conta bancária, nem sabem de seus direitos e deveres bancários. E por causa disso, cometem erros primários. Veja abaixo os erros que você cometer.
1 - Quando você pede para abrir uma conta, assina o contrato sem ler. Isso faz com que o cliente passe por constrangimentos quando vai reclamar, por exemplo, de tarifas e juros cobrados por uso do limite do cheque especial.
2 - Se recebe salário, saca todo o dinheiro, sem considerar tarifas e o limite do cheque especial. Isso leva, a longo prazo, à cobrança de juros, tarifas por ter estourado o limite e impossibilidade de sacar todo o salário. E se costumam zerar a conta todos os meses, quando deixam dinheiro nela de um dia para o outro, o banco cobra todas as tarifas possíveis que estiverem pendentes.
3 - Guarda a senha junto com o cartão. Isso possibilita que qualquer pessoa que tenha acesso ao seu cartão possa usá-lo sem sua permissão.
4 - Aceita ajuda de qualquer um no caixa eletrônico. O recomendável é que procure a ajuda de um funcionário identificado por crachá, ou autorizado pelo mesmo. Caso contrário. o cliente corre o risco de ter seu cartão trocado, o dinheiro sacado roubado ou o envelope de depósito trocado por um vazio.
5 - Ao não ter condições de movimentar a conta, não providencia seu encerramento. Para que o banco encerre sua conta, ela não deve ter limite de cheque especial e o saldo deve estar zerado.
Se não for o seu caso, deve providenciar o encerramento, caso contrário as tarifas serão cobradas do limite, e com o limite utilizado, se inicia a cobrança de juros. Você também não pode encerrar a conta se tiver um empréstimo em andamento; você deve quitá-lo ou, se não tiver condições, manter a conta aberta até pagar o empréstimo. Também não pode se esquecer do cartão de crédito.
Muitos clientes que recebem salário pela conta corrente acreditam que a empresa irá encerrar suas contas após serem demitidos ou transferirem a folha de pagamento para outro banco. NÃO CAIA NESSA! Seu CPF, seu nome, e não o do seu antigo empregador irão para o SERASA e o SPC caso você não tome providência.
Caso os seus patrões passem o pagamento do seu salário para outro banco, e você esteja endividado, utilize a Livre Opção Bancária e continue a movimentar sua conta original. Assim, evitará transtornos e seu nome poderá continuar limpo, ou terá maiores chances de regularizar sua situação.
6 - Manter conta corrente em mais de uma agência ou mais de um banco. Por que isso pode ser um erro?
Uma grande parcela da população bancarizada tem apenas uma fonte de renda. Como no caso dos assalariados. Cada conta corrente significa mais tarifas, anuidades e empréstimos que possam fazer. Isso parece bom a princípio, mas quem não tem controle financeiro pode se embananar. A pessoa pode comprometer sua renda mais do que pode com faturas de cartão de crédito e empréstimos e aí, complicar sua vida.
Cheques podem ser devolvidos por falta de fundos porque o cliente tem os recursos divididos e pode se atrapalhar. O ditado "Não se põe todos os ovos no mesmo cesto" não se aplica nesse caso.
Então, tome cuidado e procure evitar esses erros.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Sinais de que a conta no banco pode desandar

- Você usa todo o limite do cheque especial, durante a maior parte do mês
- O limite do seu cheque especial e maior do que o seu salário ou benefício, e quando o dinheiro entra, não o cobre
  • Passa cheques sem reservar o dinheiro na conta
  • Quando o cheque é devolvido pela primeira vez, você faz a sustação, em vez de pagá-lo
Faz um empréstimo atrás do outro, tentando pagar suas dividas, ou só pensando no que vai gastar
Saca do limite do cartão de crédito pra cobrir o cheque especial
  • Vive pedindo aumento de limite no banco
  • Adquire qualquer produto que o banco queira empurrar pra aumentar o seu limite, mas depois não consegue pagar ou pede o cancelamento logo em seguida.
- Paga só o mínimo do cartão de crédito
- Vive estourando o limite do cheque especial
- As suas contas no débito automático sempre são pagas em atraso, porque você não deixa saldo na conta, no dia do vencimento
- Você zera sua conta todo mês, e quando deixa saldo de um dia pro outro, o banco cobra todas as tarifas que consegue
- Você se pergunta aonde foi aquele dinheiro que você guardou no banco - não importa a forma: poupança, cdb, fundo.
- Você faz uma aplicação e logo já esta resgatando.
E de que já desandou
  • Você começa a receber cartas de cobrança do banco. E depois de empresas de cobrança.
  • O seu cartão de crédito é recusado quando você faz uma compra
  • Você não consegue fazer mais empréstimos porque você esta com o nome sujo, o seu limite de crédito foi reduzido ou o saldo devedor esta muito alto
- Apesar de receber avisos do banco, você fica surpreso ao ver o limite do seu cheque especial ser cancelado
- A cobrança do seu empréstimo em atraso, o cancelamento do seu cheque especial ou algo do gênero impedem que você saque seu pagamento, ou grande parte dele.
- Quando você vai retirar seu novo cartão, recebe um que e só de débito e bancário, em vez do de crédito
- Você não tem mais investimentos no banco, só dividas

segunda-feira, 19 de março de 2012

Bancários vão às ruas cobrar proteção à vida

Bancários vão às ruas cobrar proteção à vida
Reforçando o artigo anterior sobre as portas giratórias. Alguém duvida que o panorama se tornará mais sombrio SEM as portas giratórias?
Em breve, uma análise do artigo 5o da Constituição e as alíneas ligadas à questão.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Reflexões sobre a porta giratória

Após alguns meses refletindo sobre o episódio ocorrido em uma agência do Bradesco sem porta giratória, no ano passado, creio que tenho alguns argumentos pela manutenção dessa ferramenta de proteção a bancários, vigilantes e clientes.Além disso, paira no ar a ameaça de retirada da porta giratória no meu local de trabalho, que está  em reforma.
Entre clientes, essa porta que trava ao detectar uma quantidade de metal compatível com uma arma, mesmo de pequeno porte quase uma unanimidade quanto ao constrangimento que causa àqueles que não entendem a necessidade dela em um estabelecimento comercial cujo principal produto é o dinheiro. Fora com ela!
Mas entre bancários e alguns clientes mais esclarecidos, a compreensão de como ela ajuda a dificultar os assaltos é maior.
Falar sobre o estresse causado pela iminência de um assalto em uma agência sem esse tipo de segurança é incompreensível para aqueles que não trabalham lá nem vão diariamente a um banco. Então, vou listar algumas coisas que aconteciam antigamente e podem voltar a acontecer caso a porta de segurança seja abolida.
ELEMENTO SURPRESA
Não adianta ter seguranças armados se não tivermos como verificar de forma não invasiva se a pessoa porta algum metal. A alternativa poderia ser a revista dos clientes que entram na agência, o que geraria mais constrangimento do que a porta giratória pode causar, pois poderia levar a acusações de assédio sexual, no caso de não haverem vigilantes do mesmo sexo do cliente. Os vigilantes também poderiam também ficar de arma em punho durante todo o expediente, o que aumentará o clima de tensão entre clientes e funcionários.
Se as duas medidas substitutivas não forem adotadas, corremos o risco de que os ladrões entrem calmamente e tirem suas armas das sacolas ou bolsas, anunciando o assalto.
Os vigilantes podem vir a reagir e aí clientes e funcionários ficarão no meio do fogo cruzado, podendo causar mortes e ferimentos.
PERDA DE ARMAS PARA A CRIMINALIDADE
É claro que os ladrões não vão se arriscar a ficar no meio de um tiroteio. A primeira medida que tomarão é render os guardas e tomar suas armas. E é claro que elas não serão devolvidas sem balas durante a fuga. Essas  armas, legalmente registradas em nome das empresas de vigilância, passarão a fazer parte do arsenal dos criminosos, que irão usá-las em outros assaltos, nos bancos ou não, e no comércio de armas ilegais. A campanha de desarmamento vai pro buraco.
 AUMENTO NOS CUSTOS COM FUNCIONÁRIOS
Sem portas giratórias, ser um bancário torna-se uma profissão de risco. Na visão deste bancário, de vários outros colegas e do Sindicato dos Bancários. O que significa que, na campanha salarial, uma das exigências passará a ser o pagamento de adicional por periculosidade. E isso terá um efeito colateral indesejável: as seguradoras podem passar a classificar a profissão como atividade de risco e, consequentemente, entre as passíveis de rejeição para propostas de seguro de vida, o que causaria uma grande queda no faturamento das empresas.
AUMENTO DE CUSTOS, DIMINUIÇÃO DE PESSOAL
Esse aumento de custo fará as empresas utilizarem a saída mais fácil: corte de pessoal e investimento em tecnologia, para enxugar as agências. O que, por alguns anos (talvez décadas ou até mesmo um século) causará aumento da insatisfação com o atendimento bancário.
Uma parcela significativa da população é semi-analfabeta e um sistema educacional com aprovação automática está soltando gerações de analfabetos funcionais no mercado. Isso significa que muitos clientes, por mais que se idolatre a tecnologia hoje em dia, continuarão preferindo o atendimento pessoal ao automatizado, seja nos caixas eletrônicos, internet ou Centrais telefônicas. E não serão atendidos ou o serão insatisfatoriamente, sendo empurrados para os "canais alternativos de atendimento", que, na verdade, de acordo com as estratégias dos bancos, são na verdade os canais principais de atendimento - principalmente quando se trata de cliente não tão rentáveis.
AUMENTO DA CRIMINALIDADE
Portas abertas significam maior facilidade para entrar e sair das agências não só para os clientes, mas também para os bandidos. A porta giratória não só dificulta a entrada de pessoas armadas como também pode dificultar sua saída - não pela detecção do metal, mas pela sua estrutura e poder ser travada pela segurança (eles não fazem isso quando um cliente tenta entrar, como muitos pensam, mas antes da abertura e após o encerramento do expediente, para impedir os "atrasadinhos" e os "apressadinhos").
Facilidade na execução do crime, facilidade na fuga, aumento do índice de crimes desse tipo.
CONCLUSÃO
Os bancos podem argumentar com cortes de custos (principalmente com processos por danos morais), mas  podem acabar se dando um tiro no pé com essa proposta de retirada das portas giratórias. Elas foram instaladas por um motivo - a segurança de clientes e funcionários. E esse motivo continua válido.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Greve dos bancários 2011 - dia 1

A greve foi decidida após a oferta pífia de aumento real de 0,35% por parte da Febraban. Na segunda, decidiram pela greve por tempo indeterminado.
Sem novidades até aqui, está no noticiário, só que dá a impressão que estamos pedindo uma exorbitância de aumento (como os políticos deram a si mesmos recentemente em São Paulo).
As coisas mudaram desde que ouvi falar pela primeira vez sobre uma greve dos bancários, quando era criança. A tecnologia avançou e hoje uma parcela dos clientes não se sente tão prejudicada pelo nossa paralisação. Eis alguns motivos:
- Surgimento dos caixas eletrônicos. Cada vez mais a tecnologia tem possibilitado o acesso aos serviços bancários através dessa ferramenta. Podemos utilizar suas ferramentas básicas: saques, consultas e pagamento de contas até outras mais avançadas, como a sustação de cheques, aplicações e resgates de investimentos e pedido de empréstimos.
- Internet. Para ser completa, só falta entregar o dinheiro e imprimir talões de cheques.
- Correspondentes bancários. Primeiro foram as lotéricas; depois o Correio. Hoje em dia, até supermercados e farmácias recebem contas e fazem depósitos e saques (e não só nos caixas eletrônicos instalados no local).
Bom para os clientes, ruim para nós. Mas existe uma grande parcela de clientes e beneficiários da previdência e programas sociais que, por uma razão ou outra, dependem ou preferem o atendimento no guichê e nas mesas. São eles:
- Idosos. Muitos não estão acostumados ao uso da tecnologia, não têm reflexos tão rápidos ou têm problemas de saúde que dificultam a interação com a máquina.
- Deficiência na educação. Com um alto grau de analfabetismo e evasão escolar, esse grupo tem dificuldade em ler o menu do caixa eletrônico rápido o suficiente para usá-lo, ou se envergonham de sua condição de ignorância e recorrem ao atendimento no guichê. Pode haver pessoas que pertençam aos dois grupos.
- Os que têm resistência às inovações tecnológicas. Podem até usar computador em seu trabalho, mas o vêem com desconfiança e não o usam para assuntos pessoais. Acham a tecnologia um "mal necessário" ou algo do qual abririam mão com prazer, se pudessem.
- Os que não sabem todas as opções que a tecnologia bancária oferece. Caso sejam orientados corretamente, deixam de fazer parte das filas dos guichês e, se não fizerem parte do grupo anterior, das filas nas salas de auto-atendimento.
Os dois primeiros grupos são os que mais sofrerão durante a greve, mas o impacto será muito menor do que na minha infância.
A não ser que mais e mais bancários se juntem, incluindo os comissionados. Mas para que eles se juntem ao "chão de fábrica" precisamos incluir no pacote de reinvidicações duas coisas:
- estabilidade de um ano para a iniciativa privada
- garantia de manutenção dos cargos comissionados pelo mesmo período para gerentes e assistentes que aderirem à greve: neste caso, não só da comissão mas da permanência no local de trabalho caso assim o desejem.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Nariz de Pinóquio

Em todos os campos do conhecimento humano, as pessoas agem das mais variadas formas tanto da parte dos produtores do conhecimento quanto dos usuários ou público leigo. O leque de reações pode variar da completa rejeição (conservadorismo) à adesão entusiástica (e muitas vezes impensada ou mal-intencionada) às novas ideias e tecnologias.
Isso se aplica ao setor bancário. Quando surgiram os caixas eletrônicos, muitos clientes viram a oportunidade de otimizar o acesso ao banco. Com o advento da internet e os avanços na Tecnologia da Informação, o leque de opções se ampliou de tal maneira que, se fosse possível, os bancos forneceriam cédulas e talões de cheque pelos nossos computadores.
Isso gerou, além das oportunidades acima listadas, problemas para dois grupos envolvidos nesta equação: os bancários, que sofreram com a perda de postos de trabalho, e as pessoas que necessitam dos serviços bancários, em especial o atendimento no caixa.
Este segundo grupo é dividido em dois grupos: clientes e usuários (potenciais clientes do banco). Com o avanço da tecnologia e a terceirização dos serviços de caixa, em especial os pagamentos das contas de consumo, esse público é estimulado - se não simplesmente empurrado – para os “canais alternativos de atendimento”.
Como a receptividade é variada, temos um grupo que faz a maior parte de suas transações por internet, caixa eletrônico ou débito automático e faz uso do cartão de crédito e débito para fazer suas compras. Há um segundo grupo que o faz de vez em quando, mas também faz transações em dinheiro e o guarda em casa. O terceiro grupo vê o banco apenas como o local onde seu pagamento está guardado e na data do recebimento saca todo o dinheiro e tenta levá-lo para casa, para depois voltar ao banco e pagar suas contas.
Além da mentalidade por trás desses tipos de comportamento, também há fatores sócio econômicos que influenciam a forma como a pessoa usa banco. E o primeiro deles é a educação. Quanto maior o grau de instrução, maior o acesso à informação e a facilidade para lidar com novas tecnologias. O acesso a essas tecnologias também influi na maneira com que o cliente se relaciona com o banco.
Por outro lado, se o cliente tem uma deficiência na sua formação escolar, ele estará mais inclinado a usar o guichê em vez do caixa eletrônico ou a internet. Por que ele pode não ter condições de compreender o menu de opções que o terminal oferece, perdendo-se entre elas e podendo até mesmo bloquear a senha ou, pior, ser “ajudado” por um “bom samaritano” que pode trocar seu cartão, seu envelope de depósito, fazer uma transação indevida ou simplesmente levar o dinheiro dele sem que se perceba.
Há outro grupo inclinado a esperar pelo atendimento do caixa humano, que é o de idosos. Se já fizer parte do segundo grupo, a situação piora devido às condições da idade: lentidão nas reações, problemas de saúde que podem levar ao enfraquecimento da memória e a cultura da juventude, que faz com que os mais novos desrespeitem os idosos, reclamando quando há muitos na fila de atendimento.
Para forçar o uso dos canais alternativos, as gerências das agências fazem com que os caixas e todos os funcionários entre a entrada e o guichê se tornem clones do Pinóquio.
"Não tem sistema", "o convênio é apenas para débito automático ou pagamento no caixa eletrônico", "não existe mais a transação no caixa", "estamos sem comunicação para receber boletos de outros bancos", "o documento não passa (usando uma transação indevida para o mesmo)" são algumas das mentiras que somos obrigados a contar para nos desvencilharmos desse público, que acredita que a única função do banco é pagar contas e sacar dinheiro.
Há outras, entretanto, que são reais e lastreadas em normas internas e do Banco Central, como a exigência de apresentação de documento de identidade válido para efetuar saques ou fazer outras transações que possam influenciar na movimentação da conta, como desbloqueio e alteração de senhas.
Também, como já contei neste blog, a falta de dinheiro no caixa é verossímel, devido à movimentação feita durante o dia.
Então, qual é a solução?
Uma delas talvez seja exigir dos bancos que haja assistentes para os usuários dos caixas eletrônicos para aqueles que se dispõem a usá-lo. Dessa forma, minimizam-se os problemas com bandidos que ficam à espreita esperando uma vítima fácil.
E esses assistentes, por força da legislação pertinente ao setor bancário, devem ser funcionários efetivos, e não terceirizados, estagiários ou menores aprendizes.
Um outro ponto importante é a informação prestada ao cliente desde a abertura de sua conta e durante todo o período em que se relacionar com o banco. Um erro muito comum é o cliente achar que, porque a empresa mandou abrir a conta, a responsabilidade pelo fechamento é de seus futuros ex-patrões, e não deles. O cliente, quando faz a abertura, deve se dispor a tirar todas as dúvidas, tendo como contraparte a disposição do funcionário para respondê-las, com a leitura do contrato (que quase ninguém faz).
O terceiro ponto não depende do banco nem do bancário, mas do governo (implantando políticas efetivas de educação, entre outras coisas) e do cliente. Sem disposição para aprender, praticar e tornar-se independente, o cliente ficará sempre à mercê de bandidos, que querem se aproveitar dele, e da política das agências, que o quer no seu cadastro, mas não na fila de atendimento das agências, empurrando-o para o caixa eletrônico ou para o atendimento terceirizado.